Ganhadores 2003
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Amigos:
O escritor brasileiro sofre.
Li uma estatística que em torno de 50.000 originais são devolvidos pelas editoras todos os anos no Brasil. O escritor brasileiro que não está residindo em Porto Alegre, Rio, SP (talvez Belo Horizonte e Salvador), sofre as piores penas. Custa mais caro para as grandes editoras manter contato, conversar pessoalmente, etc, com autores de outras cidades e, pior, outros estados.
Tive oportunidade de conversar algum tempo atrás com a Lúcia Riff, agente do Caio Blinder e outros figurões. Ela comentou que foi "reader" da Nova Fronteira por muito tempo e que seu maior pesadelo era quando vinha a ordem de "limpar a mesa". Era obrigada então a devolver tudo, lidos e não lidos. O pesadelo era cogitar a possibilidade de estar devolvendo, sem ler, uma obra prima. Fato que, ela lamenta, ocorreu algumas vezes.
As editoras não conseguem administrar a imensa produtividade nacional. Assim é que está começando a ganhar força entre nós a figura do Agente Literário, que faz, já de cara, uma triagem. Assim, é preciso ter:
QI (quem indica) ou CV (um bom currículo) ou MP (muita paciência) para esperar sua vez.
E o CV, que, de todos, é o que mais depende do próprio escritor, é construído através de resultados em Concursos Literários.
Vejam a "sede" deste pessoal: +- 300 inscritos. Vejam, por outro lado, a
potencialidade dos blogs. E, vejam, a responsabilidade que nos foi dada. Nós estamos ajudando a construir o futuro destas pessoas.
É possível que entre eles pode ter aquele(a) que só estava querendo um DVD. Mas, acreditem em mim, se eu não estivesse na
Comissão, teria com certeza inscrito uma narrativa. É imensa a necessidade de concursos literários sérios no Brasil. Concursos cujos ganhadores exibam com orgulho o título em seus CV. Nós jurados, e
a Comissão Organizadora, tivemos a maravilhosa oportunidade de fazer parte disto.
Não, não estou delirando nem "over" valorizando o concurso. Não estou analisando como jurado, mas como alguém que deseja, como os 300 inscritos, ter seu trabalho reconhecido por seus pares e pelo público, como um escritor em início de carreira.
É por isto que iniciativas como esta PRECISAM se multiplicar.
Parabéns, Comissão Organizadora. Parabéns jurados.
Foi um prazer.
Fábio Marchioro
» 1º Lugar
» 2º Lugar
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» 4º Lugar
» 5º Lugar
» Menção Honrosa
» Menção Honrosa
» Prêmio Especial Taperouge
» Prêmio Especial Taperouge
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1º lugar –Josia por Jules
Rimet
Josia era um mendigo chique. Morava ao relento, mas o seu relento incluía exclusivamente os arredores da imponente torre do
Sunset Tower, num penhasco que dava a visão dos dois paraísos azuis se encontrando na distância: o céu e o mar. Por causa de sua residência, aprendeu a degustar as mais finas iguarias. Os restos, certo, mas não menos iguarias. O seu dia começava com um desjejum composto de iogurte, frutas, pão sírio. Nos dias frios havia chocolate quente. Nas noites frias,
consomé e variedades de cremes. O almoço sempre: saladas das mais variadas, filés flambados com amoras, vez por outra uma dose de
veuve clicquot ou vinho. Ontem ele almoçou simplesmente risoto de alcachofra e batatas
rosti, acompanhado de um vinho chileno. Hoje seu corpo foi encontrado boiando, batendo nas pedras do penhasco abaixo do hotel. Um manobrista disse que o viu passar na tarde anterior, carregando linha e anzol, resmungando algo sobre
sashimis e noite japonesa. Foi enterrado como indigente. Mas bem
marinado.
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2º Lugar – A decisão por André Machado
A nevasca seguia virulenta lá fora; dentro, o troar dos aplausos era inesgotável, irreprimível. Chamado ao palco, os gritos de "O autor! O autor!" transformando-o num títere gigante, postou-se no proscênio, como fizera nos últimos anos, impecavelmente elegante na capa Inverness e tirando da cigarreira dourada um dos incontáveis cigarros que o acompanhavam após os jantares no Savoy.
Ao dar a primeira tragada, viu na quarta fileira a Desgraça aplaudindo de pé, num longo vestido negro adornado por um único rubi cor de sangue. Naquela noite, decidiu: deixaria a vida de dissipação e recolher-se-ia num mosteiro, onde escreveria suas melhores obras, frutos da reflexão de que tanto precisava.
Mas a manhã surgiu magnífica, sem uma nuvem no céu, e lhe trouxe agradável companhia. Sentia-se novo, e saiu para passear em seu cabriolé de plantão. Anos depois, na prisão, falido, recordaria: fora a Beleza que o lançara ao abismo.
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3º Lugar –
Bilhete sobre a mesa de cabeceira por Nelson Vasconcelos
Clara,
Não se assuste mas tem um homem morto lá na sala. Tarde da noite, eu lia distraído (era Luiz Vilela) e o sujeito entrou pela janela do quarto das crianças, ainda bem que elas não acordaram. Então ele chegou na sala e eu estava lá. Ele fez barulho: tropeçou nos brinquedos das crianças. Eu, que sempre implico com eles, fui salvo pelos brinquedos das crianças. O sujeito tropeçou, caiu e fez barulho. Levantei-me ágil, chutei seu rosto, respingou sangue na parede - pode deixar que depois eu limpo - e ele logo perdeu os sentidos. Era muito fraco, mirrado mesmo. E eu me senti ainda mais valente (agora lembro: era RF o que eu estava lendo) e chutei-o muitas e muitas vezes, ele desmaiando foi cuspindo vomitando sangue, e puxei seus cabelos, ralei no chão sua cabeça, fui torcendo-lhe o pescoço até seus ossos estalarem em minhas mãos. Ele era mesmo muito fraco. Com a língua de fora, abriu os olhos, estremeceu, gemeu, quietou, estava morto. Então, Clara, não se assuste. O homem deitado lá na sala está com os olhos abertos, mas está morto. Levei as crianças para a casa de mamãe, daqui a pouco volto para dar um jeito na sujeira. Volte a dormir, você precisa descansar.
PS: um beijo de bom-dia.
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4º Lugar – Alimento por Rubens da Cunha
Foi uma criança malvada com animais pequenos: matava passarinhos, tirava asas de borboletas, esmagava a cabeça dos grilos, mijava sobre os formigueiros, apreciava jogar brasas para as rãs engolirem, afogava vaga-lumes só para ver se acendiam debaixo d'água. Agora, depois que recebeu a carga de ser adulto, culpa-se até por matar estes pequenos terroristas chamados pernilongos. Baratas então, vai às lágrimas por matá- las. Salva mariposas, libélulas ou corruíras que se desviam do caminho e entram na sua casa. Centopéias, preás , ratos de esgoto, cachorros e gatos vadios, todos tem a sua compaixão. Ao protegê-los pede perdão pelo passado de assassino. Estes dias, recebeu um golpe de Deus ou da natureza: salvou uma borboleta presa na janela, com todo cuidado, fez com que ela saísse voando, quando de repente, surgido do nada, um bem-te-vi veio e engoliu a borboleta recém alforriada. Sorriu otimista diante do susto: 'foi um dia bom, salvei uma borboleta e alimentei um passarinho".
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5º Lugar –
Bom dia! por Marco Aurelio Brasil Lima
Olhou para um lado - belo perfil - e para o outro - sol recém nascido nas claras retinas, atravessou a rua com um passo macio, sorrindo um amor novo, toda meiguice, toda candura.
Saltou o muro baixo, bateu à porta, ele abriu - olhos grudados de sono - acordou com o tapa.
Ela deu meia volta e volver e volveu, repulou o muro baixo, reatravessou a rua sorrindo uma liberdade nova, toda dignidade, toda armadura.
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Menção Honrosa – Nova Parábola dos Cegos por Luigi Augusto de Oliveira
O pior é o que bate o bordão no solo e dá aos demais a esperança de um código.
O último da fila, entregue à indecisão (já tropeçou três vezes, geme de maneira errada, irrita os outros), receberá amanhã, ao pôr do sol, duas córneas, e às dez a venda encarnada (como um poente) para o fuzilamento.
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Menção Honrosa – Amor ao Molho Pardo por Juliana de Morais Ferreira
Antônio era amolador de facas. Também amolava tesouras, alicates e pessoas. Maria era cozinheira. Usava facas, colheres e carnes. João era açougueiro. Cortava carnes de boi, frango e gente. João trabalhava todo o dia. Mente vazia oficina do diabo; cabeça cheia fábrica do capeta. Do açougue via: passava Antônio, passava Maria. Só o tempo custava. O ciúme cortava feito aço de navalha. Bem dizem: fé cega, faca amolada. Mesmo que não tivesse visto os beijos, podia sentir o cheiro do desejo. Conhecia bem os aromas da carne. Desejava já sentir o cheiro do sangue. Chamou o amolador. Pediu que lhe amolasse as facas. Todas. Pagou pelo serviço. Pagou caro. Caro lhe custou uma vida. Pediu que Antônio escolhesse uma das facas, apontasse a mais afiada, e foi ela que o coração de ferro usou para enfiar-lhe no peito de carne. Coração, músculo involuntário. Afiada por suas próprias mãos, a faca que se chamava Maria atravessou-lhe o corpo e cravou a alma. Maria casou-se com o barbeiro
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Prêmio Especial Taperouge – Planetário por Fabio
Danesi
Outro dia passei no Planetário. Porta fechada. Alguns materiais de construção à vista. Uma placa. Universo fechado para reforma.
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Prêmio Especial Taperouge – Ao Matar Elefantes por Marcelo
Ferlin
Para matar elefantes o velho Krill sobe o íngreme morro de Aspirai. Ele é caçador e nosso vilarejo é pobre. Sobrevivem nossas famílias apenas da caça. Krill é pai de doze, quatro esfomeados inúteis e oito mulheres. As duas filhas mais novas são retardadas.
Krill quase não escuta mais e nunca foi de falar. Está ficando cego também. Para o velho caçador basta enxergar os olhos do elefante. O que preocupa a família Krill são seus dentes. Os dentes do velho se quebraram contra a pele grossa do elefante. Restam-lhe cinco dentes bons. São suficientes. De resto, ele é magro, queimado e enrugado pelo sol. Tem cabelos brancos.
Os elefantes se amontoam no alto do morro de Aspirai. O topo é tão estreito que às vezes os elefantes deitam-se uns sobre os outros. Os mais jovens e mais leves equilibram-se ajoelhados sobre o dorso dos mais velhos.
A cada lua Krill sobe o morro. A caçada pode durar muitos dias. Eu já sou velho e tenho a metade da metade dos anos de Krill, mas sempre meus olhos se enchem de lágrimas quando vejo o velho caçador rolando morro abaixo, agarrado a seu elefante.
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O que é?
É um concurso aberto a todos os blogueiros ou não-blogueiros amantes de blogs,
que gostem de literatura, que gostem de escrever e que queiram experimentar o
estilo de que se trata em Haroldo Maranhão e
"Prosa micróscópica ou a microscopia
da prosa."
O concurso é uma iniciativa do Blog Sub Rosa. Caracteriza-se por uma extrema
simplicidade e está sendo feito não para prestígio pessoal, mas, ao contrário,
para homenagear Haroldo Maranhão e resgatar o conhecimento desse nosso importante
escritor, felizmente ainda vivo, mas, como tantos outros, quase completamente
desconhecido.
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