« rapidinho: as invasхes e aos treze | HomePage | Com incentivo, por que nгo? por Elis Monteiro »
Escrevo feito um possesso: como se me restassem horas de vida e precisasse escrever um romance de trezentas pбginas. Escrevo. Como um possesso. E no entretanto deixo minutos escaparem, quartos e quartos de hora. A preguiзa acumplicia-se com o tempo e me devora, e contra eles preciso opor-me, levantar-me e mirб-los. E enfrentб-los, processando energias e revitalizando potencialidades que me vieram e eu enriqueci. Quando nгo escrevo sou um vice-morto, e as pernas atropelam-se na tentativa de imprimir velocidade аs passadas. Um dia, alguйm isso descobrirб, ou ninguйm descobrirб e o trabalho terб sido vгo. Se de descobrirem, captarгo o frкmito que pauta atй mesmo o ato de respirar. Fecho os olhos e corro o mais rбpido que posso para chegar exatamente aonde?
Para mim, inventar nunca foi uma calma tessitura de palavras hesitantemente juntadas a outras palavras, plбcido trabalho, costura lentнssima, lentнssimo enfiar de linha nas agulhas, o estirar o tecido passando-se as mгos para desenrugб-lo. Para que urgкncias, por que nгo comeзar amanhг a afiar os lбpis, arrumar os papйis, pensar as palavras, a palavra inaugural, e qual serб a palavra inaugural? A l etra inaugural?, vogal, consoante, que consoante e que vogal, meu deus? Me surpreendo irado ao perceber que antes da primeira nota hб pausas, um silкncio de anos, uma espera de anos, que a mim mesmo precede.
A escrita comeзa pela paciкncia da espera e й tudo o que me falta: paciкncia da espera. Nem uns bocados de paciкncia, que preciso amar a mulher que nгo sei onde pбra e sobre ela sim, calmo e vagaroso serei, calmo, vagaroso, poderei morrei atй logo depois embora queira revк-la e reamб-la, apurando o recheio dos seus fкmures interminбveis, a bruna epiderme e a resignaзгo com que suportarб minhas exasperaзхes, minha boca quase sempre calada. Aн. para que mais o consumir-se na possessгo de pфr nervosamente tudo, tudo por escrito?
Escrevo porque, Deus, preciso sem cessar estar buscando no infinito a partнcula irreproduzida e minha. Nгo ambiciono mais que a minha partнcula. Ela, onde me espera expectante tambйm? Entгo, percorrem-me raivas que reprocesso na palavra escrita. Eu. O tempo terminando-se. Ela que tarda, tarda.
E a maldiзгo ou castigo deste eito e cilнcio, que de mim mesmo depende acabб-los mas nгo acabo. E todos os dias a fiaзгo repete-se, o acerar das agulhas, o empregar as linhas melhores, o pano grosso ou o tecido de seda. E o enfiar e o reenfiar a ferramenta com forзa e ira, ou docemente em muito escassas vezes, fel e mel minado de mim, уdio e pequenos atos de amor, sussurro e berro.
Eu, pecador, humнlimo me confesso, humнlimo, e arrogante sonego minhas avarezas, minhas invejas, minhas preguiзas, minhas gulas, minhas iras, minhas luxъrias, minha soberba. Eu, pecador, por mim prуprio premiado e punido, punido, punido, punido. Sou caudaloso e peco de бguas, singularplural, pluralsingular, desconcertante que se desconcerta, imprevisto no dobrar sombrio da mais distante estrada, dйspota e oprimido, lancinante e torvo, esquivo, solto, cativo, nativo de um chгo de hъmus. Abcdefghijklmnopqrstuvwxzyz, as peзas todas do meu puzzle, e mais cedilhas, vнrgulas, acentos gravнssimos, agudos. E a as pausas. As pausas. O nгo conseguir preencher vazios. O nгo conseguir preencher vazios.
Ah se, ah se, ah se.
Haroldo Maranhгo
Texto introdutуrio, ao livro "Senhoras&Senhores. Rio, Ed. Francisco Alves, 1990.
Que tem como subtнtulo, "uma espйcie de diбrio"
O curioso й que Haroldo, ao explicar do que se tratava, escreveu: "Na capa estб escrito que й um Diбrio. Nгo me importou e nгo me importa se o dia й 31 ou foi 14, se domingo ou terзa-feira, se ainda 1956 ou se jб 1999. Й um Diбrio porque invariбvel compromisso de todos os dias, todos os dias, ginбstica diбria. Exercicнos de de flexгo da ficзгo."
Se isso nгo й um blog em livro, eu nгo sei o que que й.:-)
voce escreve tambem pra deixar a gente feliz...feliz por ver um belo texto ser parido, sem do nem piedade
Ficamos lhe devendo mais essa. Ter nos apresentado ao Haroldo Maranhao. Eu confesso que nao o conhecia antes do concurso. Agora...agora espero que ele encontre a sua particula, o que nao eh pouco, ne? Um beijao. Virei sempre aqui, agora que minha situacao esta quase normal. Nao da pra deixar de beber dessa fonte barroca que eh esse blog.
Cath, conte t-u-d-i-n-ho! o que hб aн em Seattle.
E vc acertou, como poucos: Sou barroca! e o blog nгo poderia deixar de ser como a dona:-)
Um beijo, minha *FНSICA* quвntica (?) preferida.
Qualquer hora dessas uma Tallullah para vocк.:-)