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Donizete Galvão

Minha querida jornalista, Elis Monteiro Depardieu, me disse eufórica:
- Ah que bom que conheces o Donizete Galvão!

Bem, vocês sabem que eu adoraria saber tudo o que alguns imaginam que eu sei, mas devo confessar - embaraçada - que só agora vim conhecer o poeta, graças a uma correspondência eletrônica (chique, não é?) com o escritor Luigi Augusto de Oliveira*, a respeito de quem estou tentando escrever e que considero um dos melhores e mais refinados ficcionistas da literatura contemporânea, em língua portuguesa

Mas.. o Donizete Galvão está sendo uma linda descoberta, ainda que a destempo.

Queria colocar aqui todos os poemas dele, mas são tantos e o meu tempo é tão pouco...
Já sinto afinidades eletivas com ele, pois Severo Sarduy é um dos meus escritores (e poeta também) preferidos.

Então escolhi mais três:-)


Lembrança de Severo Sarduy

Ao ferir
com a tesoura
a haste
da manga,
escorre
o líquido,
visco
oloroso
prenunciando
nas ventas
o doce gozo.
Antecipação
do paraíso
na tarde calorenta
do gelado
suco de manga
deslizando
na garganta.



Fontícula

inúteis
o gorro de lã
em azul absurdo
a bengala
a aspereza da fala
a bile malsã
 

não  mais precisas
de casa
de pão
de vinho
da companhia de um gato
de esmola
 
 

o silêncio chegou,
curva-te
o nada
é um estado
de graça
 

ficou a palavra
osso
âmbar
aragem inefável
 


Inventipalavração

Que tristidade!
Que gordureza!
Que esbeltura!
O que diria
a mômica Alice
diante dessa
loucurice?
Inseio-o.
Sua pele era
esverdolenga.
A criassoa era meio
causamedífera.
Mesmo estupefata,
naquele momento,
não o achei asquerento.
Há café?
Askentei.
Nada answerizou.
Há café granizado?
Permaneceu calado.
Quedei-me absurdada.
Chega de conversa.
Você me bouleversa.
Mais tarde,
encasimificada,
comigomesmada,
em processo
de euzificação,
toca a campainha.
Ao porteabrir,
depavi-me
com uma cartinhazinha.
Desenvelopizei-a
e startei a gargarrir.
Assim assinada vinha:
coracionalmente,
seu ET de Varginha.

Não é maravilhoso?

*Luigi Augusto de Oliveira também é poeta.

Comentários

Meguinha, o inventipalavração é maravilhoso mesmo. Muuuito bom.
Beijocas

por: Ofélia | às 12:21AM do dia 10/12/2003

acho que estou para chorar por tudo hoje, mas deparar-me com Fontícula desatou o contido dos olhos e despejei um rio quente pelo rosto cansado. estava precisando. gracias, Meg.

por: Diana Z. | às 01:14PM do dia 10/12/2003

simplesmente maravilhoso, Meg... vou conferir, como faço com todas indicações, tuas.

por: Dânae | às 01:25PM do dia 10/12/2003

Acho que houve uma confusão Meg. Eu sou Elis, jornalista, mas não sou Monteiro e sim Marchioni, aqui de São Paulo.
Sou a dalcidiana, apaixonada por surtos poéticos.
beijos,

por: Elis Marchioni | às 02:30PM do dia 10/12/2003

Oh Elis, claro que não há confusão, pelo menos não no post:-) Explico pra vc querida: a Elis Monteiro é jornalista do Globo, se vc clicar no link vai ver. E ontem ela encontrou o Gerard Depardieu, na ponte aérea:-)
Eu é que tenho a sorte de ter duas amigas chamadas Elis, e ambas são jornalistas. Não é o máximo?
Eu já estava com saudades de você. Mas como???!!!! Como confundí-la, babe?
beijos
Meg

por: Meg | às 03:38PM do dia 10/12/2003

Saudades! :)
Foi bom voltar!

por: João Mãos de Tesoura | às 06:21PM do dia 10/12/2003

adorei a inventipalavração.
você e suas descobertas maravilhosas :o)))
beijos

por: Dani | às 06:41PM do dia 10/12/2003

Meg, escolhi um dia exato pra vir rever o blog, hem?!... Muitos obrigados pelas palavras tão simpáticas e para minha sorte bem pouco justas (excessivamente generosas). Quanto a mim, claro, não ao DG. Mas você é um doce etc. etc. (poupo-lhe... Pero no demasiado. Senão perde a graça). Só um palpite: é que o poema Fontícula é homenagem a Orides Fontela. Não ficaria ótimo um link que levasse a seus poemas? Há inúmeros, há famosos como o Jornal de Poesia. Mas no caso acho que a melhor dica é um artigo que aborda em magistral síntese a figura dela como um todo, em carne e palavra e espelho (mídia) - e escrito justamente pelo Donizete... (creio que os leitores saberão relevar os tropeços de revisão do site):
http://www.tanto.com.br/orides-donizete.htm
Não resisto a sugerir uma outra dica aos amantes daquelas outras velhas telas, de pano:
http://www.letras.ufmg.br/napq/LIVROCOLOQSEM4.doc

Uma fila de abraços

por: Luigi | às 06:43PM do dia 10/12/2003

Sim, eu conheço a autra Elis, há tempos. Mas ela também é fã do Donizete? Quando li, achei que você estava se referindo ao meu comentário do outro post. Não sabia que ela também tinha dito a mesma coisa! :-))
Que coincidência, não? Duas Elis fãs de Donizete Galvão!!
beijelis

por: Elis Marchioni | às 09:34AM do dia 11/12/2003

que lindo, Donizete! Muito obrigada, Meg. bj.

por: adade | às 09:46PM do dia 11/12/2003

Puxa que coisa fabulosa...Navegando sem rumo pela net, encontro esse blog encantador - parabéns, Meg!- e um fascinante jogo de espelhos - dois bons amigos citados: o Donizete e o Luigi. Da qualidade da poesia do Donizete acho que nunca é demais falar (o Luigi, inclusive, tem um belo ensaio sobre ela), apesar de que a poesia já fala por si e repercute dentro de cada um. Mas, quanto ao Luigi, um polígrafo de uma escrita variável e desconcertante a cada texto, é realmente uma alegria encontrar alguém que se preocupe com a obra (in progress) quase toda inédita por inércia e falta de ousadia de um mercado editorial engessado. Luigi Oliveira, sem nenhum cabotinismo, é uma das mais densas experiências surgidas na literatura brasileira dos últimos anos. E um grande amigo. :)

por: Guilherme Resstom | às 01:42AM do dia 12/12/2003
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